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Décio Gazzoni
Agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja.

Agrotóxicos: perigos, riscos e percepções

Artigo publicado em 23/03/2018

Comecemos pelo óbvio: a princípio, todos os agrotóxicos são perigosos. Continuemos avançando pelo conceito de perigo: a princípio, toda substância química é perigosa – incluindo os medicamentos para uso humano – dependendo da dose em que é utilizada. Avancemos mais: animais selvagens são perigosos. Automóveis são perigosos, assim como aviões ou trens. Até um cavalo de montaria é perigoso. Armas de fogo são perigosas. Sal, água, são perigosos. A lista é quase inesgotável.

Poderíamos, então, imitar o filósofo de botequim e afirmar: “A Terra ficou um lugar muito perigoso para se viver!”. Parcialmente verdadeiro, melhor seria “A Terra sempre foi cheia de perigos”. Ao menos é o que pensaria um coelho ou um veado, olhando para os inúmeros predadores à sua volta, esperando a oportunidade para transformá-los em ceia.

Mas, coelhos, veados, e a própria espécie humana sobreviveram milênios convivendo com perigos. E suas populações continuam crescendo, apesar dos perigos. Não tem alguma coisa errada aí?

 

Perigo x riscos

Tem, sim. O fato de existir um perigo não é suficiente para ser considerado um risco real. Um leão faminto é um perigo para um homem caminhando por uma pradaria, certo? Em termos! E se a pradaria for na cidade de São Paulo? Bem, aí só existe a possibilidade de um homem solitário encontrar um leão faminto que haja fugido do circo. Mas, quantos circos existem? E quantos têm leões? E quantos leões fogem? É justamente para diferenciar o perigo do risco que a ciência dispõe de protocolos testados e validados, aplicáveis a todas as situações, com algoritmos que permitem calcular o risco e, também, determinar as atitudes para administrar o risco.

A avaliação de risco é um procedimento científico que consiste no uso de bases de dados para definir os efeitos de uma exposição (indivíduos ou população) a materiais ou situações. Por exemplo, permite medir o risco de uma substância química causar danos à saúde, que depende da exposição e da dose. O gerenciamento do risco determina o que deve ser feito para evitar que os indivíduos sejam expostos a doses de uma substância que tenham probabilidade matemática – mesmo que ínfima – de ocasionar problemas de saúde.

 

Riscos dos agrotóxicos

O risco ragrotóxicos-olhoeal de qualquer agrotóxico é definido pelo governo de um país, lastreado em informações científicas, e pode ser reavaliado continuamente, com base em novas informações ou na própria alteração do método de análise ou de cálculo – sempre sendo mais severo e restrito. O conceito toxicológico mais conhecido é denominado Dose Letal 50 (DL50), representando a dose de uma substância química que levou a óbito 50% dos animais em testes de laboratório. O conceito não se aplica apenas a agrotóxicos, mas a qualquer substância química. Por exemplo, a nicotina apresenta DL50 de 50 mg/ kg; a cafeína de 192 mg/kg; a cipermetrina de 1.687 mg/kg e o paracetamol de 3.000 mg/kg.

Entrementes, apenas a DL50 não é suficiente, existem mais dois valores que servem para garantir a inocuidade dos agrotóxicos. O primeiro deles é denominado Ingestão Diária Aceitável (IDA), conceituada como “a quantidade de uma substância química que pode ser ingerida diariamente por um indivíduo, durante toda a sua vida, sem risco apreciável à sua saúde, à luz dos conhecimentos disponíveis na época da avaliação”. Isto indica, na prática, a quase segurança de que não se produzirão efeitos adversos mesmo após uma exposição continuada a uma substância, ainda que isso ocorra durante toda a vida do indivíduo.

E como se calcula a IDA? Em rigorosos e múltiplos testes de laboratório, doses crescentes da substância em teste são administradas a cobaias. A maior dose que não ocasionou quaisquer alterações metabólicas perceptíveis nos organismos em teste é dividida pelo fator 100. Assim, a IDA representa apenas 1% da dose que não causou nenhum problema de saúde em cobaias, nos experimentos científicos. Porém, é importante lembrar que a dose que não causou problemas toxicológicos equivale a 1%-10% da dose imediatamente superior, que ocasionou alguma alteração. Logo, a IDA representa 0,1%-0,01% da dose que poderia, eventualmente, ocasionar algum problema à saúde.

Mas o controle dos riscos não termina por aí, é necessário garantir que o consumidor nunca vá ser exposto a essa dose. Para tanto, foi criado o conceito de Limite Máximo de Resí- duos (LMR). Trata-se do valor máximo de resíduo de um agrotóxico admitido legalmente em um alimento, considerando a aplicação adequada de uma substância química (seguindo todas as Boas Práticas Agronômicas), desde sua produção até o consumo. Obrigatoriamente, o LMR leva em consideração a IDA. Dessa forma, todo o alimento que contenha resíduos inferiores ao LMR não oferece risco à saúde humana, à luz dos conhecimentos atuais, mesmo se esta dose for ingerida diariamente, durante toda a vida. O objetivo desses conceitos (DL50, IDA e LMR) é garantir a proteção dos consumidores de alimentos de qualquer risco toxicológico.

 

Por exemplo…

Suponha um inseticida com DL50 de 1.687 mg/kg de peso corpó- reo, IDA de 0,05 mg/kg de peso corpóreo e LMR de 0,02 mg/kg de produto agrícola. Suponhamos que esse inseticida tenha sido pulverizado em uma cultura de tomate, e que todo e qualquer tomate sempre tenha o valor máximo (0,02 mg/kg) de resíduo do inseticida. A ingestão diária de uma pessoa que pese 70 kg, e que garante a ausência de qualquer problema de saúde (IDA) será de 3,5 mg/dia (0,05 mg/kg x 70 kg). Como cada quilo de tomate tem 0,02 mg de resíduo, pode-se ingerir 175 kg de tomate por dia (3,5 mg ÷ 0,02 mg/kg de tomate) sem que haja qualquer problema de saúde devido à presença de resíduo. Não se pode dizer o mesmo do risco à saúde causado pela mera ingestão de tanto tomate!

E, para que fosse atingida a DL50, seria necessário consumir os mesmos 175 kg de tomate todos os dias, durante 92 anos, para que houvesse 50% de probabilidade de óbito ocasionado pelo consumo do inseticida. Se o consumo fosse normal, de apenas 200 g de tomate/dia, então seriam 82.500 anos! Não apenas é impossível consumir 175 kg/dia de tomate, como o organismo degrada o inseticida em algumas horas após a ingestão. Logo, fica demonstrado matematicamente que o risco de intoxicação pelo resí- duo de agrotóxico está absolutamente controlado.

 

Percepção do risco

Ao contrário do risco – que é um cálculo científico e preciso – a percepção do risco é uma avaliação extremamente subjetiva, de uma pessoa isolada, ou de um conjunto delas, baseada em avaliações parciais, sem fundamentação científica, normalmente fundada no desconhecimento. Com base na percepção de risco, um grupo terrorista pode infundir um medo insuportável em uma determinada comunidade, veiculando a informação de que perpetrará um ataque de enormes proporções, mesmo estando incapacitado de provocá-lo. Um exemplo clássico é o medo de viajar de avião, que não possui nenhum fundamento científico, posto que as estatísticas demonstram que os aviões representam o meio de transporte mais seguro.

E, finalmente, existe a percepção diferencial do risco, baseada em desconhecimento, vieses e visões pessoais em função de diferentes papéis desempenhados na sociedade. Com respeito aos agrotóxicos temos duas percepções diferenciadas: a de alguns agricultores, que são muito otimistas, que desprezam o risco e não tomam as medidas necessárias para se proteger, o que os deixa suscetíveis a acidentes na manipulação e na aplicação de agrotóxicos. E o seu oposto, que é a percepção transmitida à população leiga, mormente urbana, de que o risco é elevadíssimo e que alimentos produzidos com o uso de agrotóxicos estão sempre envenenados e que, inexoravelmente, causariam problemas de saúde a quem deles se alimenta.

O mundo seria um lugar muito melhor para se viver se, tanto agricultores quanto consumidores, utilizassem conceitos científicos de risco para suas decisões, em vez de percepções de risco sem qualquer respaldo da ciência.

 


Artigo originalmente publicado na edição de março de 2018 da revista Agro DBO

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