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Tatiane da Cunha
Bióloga, mestre em Microbiologia Agropecuária (FCAV-UNESP) e doutora em Microbiologia Agrícola (ESALQ), microbiologista responsável pela Fábrica Biológica do Grupo Terra Viva.

Defensivos biológicos: presente e futuro na Fruticultura

Artigo publicado em 04/08/2020

artigo Defensivos biologicos

Quando se fala em agronegócio, é comum pensarmos que o Brasil é apenas um grande produtor de grãos, em virtude das grandes lavoras de soja e milho. No entanto, a agricultura brasileira é muito maior que essas culturas. Somos também, grandes produtores de hortaliças e frutas que são comercializados diariamente nos mercados, feiras e centrais de abastecimentos (CEASA).

A produção de frutas no Brasil

O Brasil destina pelo menos 2,3 milhões de hectares para a produção de frutas, com isso tem produzido cerca de 40 milhões de toneladas desses alimentos e se posicionando como terceiro maior produtor de frutas no mundo, atrás apenas da China e da Índia.

Quase a totalidade dessa produção, 97%, é destinada ao mercado interno. Ou seja, as frutas que você consome em casa são produzidas por agricultores brasileiros.

frutas produzidas no brasil

Dessa forma, a cadeia da fruticultura além de produzir alimentos também é responsável por gerar empregos envolvendo mais de 5 milhões de brasileiros que trabalham para entregar alimentos de qualidade aos consumidores.

Desafios e perspectivas

De fato, a qualidade e segurança das frutas é uma das principais preocupações dos produtores. Uma afirmação que é reflexo do valor que os agricultores dão às tecnologias desenvolvidas pelos pesquisadores de Universidades, empresas públicas/privadas e as startups. Uma vez que, continuam adotando novas estratégias e insumos agrícolas, preservando tecnologias e protegendo seus pomares.

O controle biológico é uma dessas estratégias que foi modernizada e hoje conhecemos como defensivos biológicos. Os fruticultores estão cada vez mais apostando nessa nova ferramenta e adotando esses produtos no combate às pragas e doenças que atacam as fruteiras. São muitos os benefícios: manutenção ou aumento da produtividade com menor uso de defensivos químicos, o que resulta em uma menor presença de resíduos nos alimentos comercializados.

Proteger as plantas contra o ataque de pragas e doenças é um desafio em qualquer cultura. Entre os insumos agrícolas, os defensivos químicos ganham destaque e tem realizado esse papel por muitos anos de forma segura e eficiente. Mas, como qualquer outra tecnologia, apresenta suas limitações, como por exemplo o surgimento de pragas resistentes ou de novas pragas para o qual não existem moléculas químicas eficientes. Além disso, principalmente na fruticultura, por serem produtos consumidos quase sempre in natura, os consumidores têm questionado a presença de resíduos químicos nesses alimentos.

Dessa forma, o uso de defensivos biológicos tem ocupado cada vez mais espaço na produção de frutas. Além de serem eficientes no controle de pragas, os biológicos apresentam taxa residual quase nula, preservam a eficiência de outros insumos e agregam sustentabilidade na produção agrícola.

Defensivos biológicos utilizados na fruticultura brasileira

Não por acaso os defensivos biológicos têm se mostrado uma excelente opção para o controle da mosca-das-frutas em culturas como a goiaba e o pêssego.  O parasitoide Diachasmimorpha longicaudata é capaz de encontrar e controlar a larva dentro do fruto, sendo que ele já está estabelecido em algumas regiões do Nordeste e Sudeste do Brasil. Outra opção que tem sido estudada pela Embrapa é o uso da vespa Doryctobracon areolatus que tem apresentado ótimos resultados no controle das moscas-das-frutas em pomares de citros.

artigo Defensivos biologicosJá no caso do ácaro-vermelho-da-macieira (Panonychus ulmi), uma praga que ataca os pomares de maçã, os produtores podem utilizar defensivos biológicos desenvolvidos a partir do ácaro predador Neoseiulus californicus. Essa inovação tecnológica permite a liberação desse produto no pomar por meio de drones, em pontos específicos onde ocorre a praga.

Na bananicultura uma importante praga é o moleque da bananeira ou broca-do-rizoma. Com a falta de variedades resistentes e poucos defensivos químicos registrados, o uso de defensivos biológicos a base do fungo Beaveria bassiana tem se tornado grande aliado dos bananicultores. Armadilhas com esses produtos são eficientes em controlar o inseto e ainda preservam outros inimigos naturais. Esses mesmos defensivos também podem ser utilizados no controle da lagarta das folhas na produção de côco.

Grandes perdas na fruticultura também são ocasionadas por fungos que depreciam os frutos tanto no campo como no transporte e armazenamento. Entre as espécies mais importantes estão os fungos Penicillium, Botrytis e Colletotrichum. Para esse problema também já existem soluções biológicas que podem ser utilizadas antes e depois da colheita.

Na citricultura, por exemplo, esses fungos são controlados no campo com a utilização de defensivos a base de Bacillus subtilis, com pulverizações preventivas, desde antes da formação dos frutos até a colheita, diminuindo a incidência e a severidade de doenças como antracnose, pinta preta, mancha de alternária, podridão floral e queda prematura dos frutos.

Após a colheita, os defensivos biológicos continuam presentes no controle de bolores dos frutos cítricos, com a utilização de produtos a base de bactérias como B. subtilis ou leveduras como a Candida oleophila. Esses defensivos biológicos além de reduzirem  a proliferação dos patógenos aumentam o tempo de prateleira e não deixam resíduos nos frutos.

Além dos fungos, as bactérias também são importantes fitopatógenos das fruteiras. Entre elas, o cancro bacteriano ocasionado pela bactéria Xanthomonas sp. causa prejuízos em citros e videiras. As pesquisas mostram que a utilização preventiva de defensivos biológicos a base de B. subtilis auxiliam no controle da doença no campo.

E as novidades não páram por aqui. Recentemente, duas bactérias têm se destacado como agentes de controle de pragas, a Saccharopolyspora spinosa e a Chromobacterium subtsugae, as quais podem ser utilizadas em combinação com os produtos a base de Bacillus thuringiensis (Bt), potencializando o seu efeito.

A S. spinosa, diferentemente do Bt que age no intestino de larvas jovens, atua no sistema nervoso central de alguns insetos e vem sendo utilizada no controle biológico de lagartas e tripes. Já C. subtsugae tem efeito tóxico quando ingerida, resultando na redução da alimentação e morte de inseto e tem sido testada no controle do percevejo da soja e insetos sugadores como o psilídeo dos citros, sendo um defensivo com grande potencial de uso na fruticultura.

Mercado em expansão

Esses são apenas alguns dos exemplos que mostram como o universo dos defensivos biológicos está em grande expansão e tem sido muito bem aceito pelos fruticultores.

A expectativa é de que cada vez mais, os agricultores consigam incorporar defensivos biológicos modernos, com alta qualidade e eficiência na produção de frutas do Brasil. Essa tecnologia é fundamental, já que o crescimento do consumo desses alimentos está atrelado aos hábitos mais saudáveis dos consumidores.

Por isso, é importante que o setor continue inovando, desenvolvendo novos insumos e ferramentas que promovam a transparência na produção de alimentos. Selos e rastreabilidade, são algumas das ferramentas que possibilitam ao consumidor conhecer como foi produzido e de onde veio cada alimento.

 

Autores

Paulo Camargo, Doutor em biologia molecular;

Tatiane da Cunha, Doutora em microbiologia agrícola.

 

Principais fontes:

DERAL. Prognóstico 2020, fruticultura. Disponível em: http://www.agricultura.pr.gov.br/sites/default/arquivos_restritos/files/documento/2020-01/fruticultura_2020.pdf. Acesso em: 24/07/2020.

FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Production, 2016. Disponível em: < http://www.fao.org/faostat/en/#data/QC>.

Fruticultura Tropical: potenciais riscos e seus impactos / Áurea Fabiana Apolinário de Albuquerque Gerum…. [et. al.]. – Cruz das Almas, BA : Embrapa Mandioca e Fruticultura, 2019. 28 p. il. ; 21 cm. – (Documentos/ Embrapa Mandioca e Fruticultura,232).

IBGE. Banco de Dados Agregados. Sistema IBGE de Recuperação Automática – SIDRA, 2015. Disponível em: http://www2.sidra.ibge.gov.br/bda/tabela/listabl.asp?c=1613&z=t&o=11.

Jorge Souza
Agrônomo, especialista em gestão estratégica de negócios. É produtor rural e diretor técnico da Abrafrutas.
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