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Francisco Henrique
Agrônomo, doutor em agricultura tropical e subtropical. É divulgador científico e produtor de conteúdo especializado no agro.

Melhoramento genético de hortaliças: da pesquisa para a mesa

Melhoramento genético de hortaliças

O melhoramento genético de hortaliças é uma prática milenar, que começou de forma inconsciente pelos povos ancestrais. Nesse sentido, quando o homem aprendeu a cultivar e domesticar algumas plantas, fixando seu território e seu espaço, deu início ao melhoramento.

Possivelmente depois das primeiras domesticações dos grãos de cereais, portanto, os humanos começaram a reconhecer características importantes em outras plantas, como nas hortaliças.

Em suma, o melhoramento de plantas é uma forma de modificar e melhorar os vegetais, seja qual for a espécie, para atender às necessidades e desejos da humanidade. Sendo assim, é um campo essencial para nossa sobrevivência e para o uso sustentável de nossa produção agrícola.

Mas, por que o melhoramento de plantas é importante?

O melhoramento genético de hortaliças, em sua definição mais simples, representa o cruzamento de plantas para produzir descendentes que, idealmente, compartilham as melhores características das plantas-mãe.

Ao longo da história da civilização, o melhoramento de plantas ajudou os agricultores a resolverem desafios complexos, ao mesmo tempo que apaziguou o apetite dos consumidores. Dessa maneira, é praticado por agricultores, cientistas e desenvolvedores de cultivares de plantas em todo o mundo.

Ademais, cultivares oriundas do melhoramento genético de hortaliças conseguem produzir mais, em menor área. E, a partir do desenvolvimento de plantas resistentes à pragas e doenças, o número de defensivos agrícolas utilizados no cultivo também é menor.

Além disso, plantas desenvolvidas para a produção intensiva, em estufas e aquelas que possuem genes de maior tolerância à seca podem ter um uso mais eficienta da água, diminuindo o seu consumo durante o ciclo produtivo.

Esses resultados do melhoramento, além de garantir maior rentabilidade ao produtor, proporcionam uma lavoura mais sustentável.

Esse melhoramento é compartilhado com você!

Ao visitar o supermercado ou decidir o que plantar em seu jardim, por exemplo, você pode notar a grande variedade de vegetais que existe por lá.

A maioria das frutas e vegetais que comemos hoje são o resultado de gerações de melhoramento genético de hortaliças. De fato, algumas das frutas e vegetais mais populares se originaram de plantas que agora seriam irreconhecíveis.

melhoramento genético de melancia
Pintura mostra melancias bem diferentes das nossas

Como é o caso do repolho, couve, couve-flor, couve de Bruxelas, brócolis e couve-rábano que compartilham um ancestral comum da planta de mostarda amarela selvagem. Além disso, as cenouras eram originalmente amarelas e roxas, e as melancias começaram como uma fruta pequena e amarga.

Portanto todas as plantas, sejam grãos, frutas ou legumes, também possuem variedades que aumentam suas chances no campo. Muitas plantas são selecionadas para resistir à seca e usar recursos naturais como a água com maior eficiência.

Por isso, a ciência de melhorar e domesticar plantas também pode ser usada para ajudar a adaptar as safras a novos locais em todo o mundo, melhorando assim a segurança alimentar e apoiando os sistemas alimentares locais e regionais.

Dessa forma, o melhoramento genético moderno de hortaliças incorpora muitos dos elementos básicos empregados desde a antiguidade, bem como técnicas mais recentes descobertas no século 20. Isso inclui estratégias de seleção baseadas em DNA e modelos estatísticos avançados.

Hortaliças no Brasil: como foi a introdução e o melhoramento das espécies?

Desde o descobrimento do Brasil, os colonizadores já traziam plantas de seu país natal para cultivar nas novas terras. Portanto, o processo de cultivo e adaptação desses vegetais em um novo ambiente já faz parte do melhoramento genético em plantas.

O trigo e a cana-de-açúcar, por exemplo, ao que tudo indica, foram introduzidos em 1534, na Capitania de São Vicente, hoje São Paulo. Além disso, todo esse novo povo, com novos hábitos e costumes mudou a dinâmica de alimentação no país, consolidando o consumo de hortaliças, principalmente na região centro-sul.

Os portugueses trouxeram espécies de hortícolas e começaram a fazer suas hortas nos colégios e igrejas. A partir de 1549, os padres jesuítas foram os precursores na introdução de diversas espécies comuns em Portugal. Nesse sentido, as introduções serviram de material básico para o melhoramento genético, buscando uma melhor adaptação dessas espécies às diferentes condições ambientais encontradas no Brasil.

Em outro período da história, houve introdução de algumas espécies vindas da África, que atualmente são adaptadas e fazem parte da alimentação de muitos brasileiros, como:

  • Inhame (Dioscoria spp.);
  • Quiabo (Abelmoschus esculentus);
  • Jiló (Solanum gilo);
  • Maxixe (Cucumis anguria);
  • Cachi (Lagenaria siceraria);
  • Vinagreira (Hibiscus sabdariffa);
  • Melancia (Citrullus lanatus).

Além disso, ainda no período colônia, a vinda da família real portuguesa para o Brasil foi responsável pela introdução de novas cultivares de couve, cenoura, cebola, batata, alface, entre outras hortaliças. Tudo isso, para alimentar mais de 8 mil pessoas da nobreza portuguesa.


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Vegetais dominantes: saiba mais

Os vegetais mais dominantes, também chamados de vegetais globais, pois tem seu cultivo em muitos países ao redor do mundo, são tomates, as cucurbitáceas (abóboras e pepinos), os alliums (cebola, alho, chalota) e pimentões (doces e picantes como a pimenta).

Outras culturas vegetais importantes com base no valor da produção global, mas nem sempre vegetais verdadeiramente globais, são o espinafre, as brássicas (repolho, brócolis, colza), legumes, berinjela, alface e chicória, cenoura, nabo e aspargos. Todos esses foram introduzidos e são atualmente cultivados no Brasil.

Com todo esse processo, as frutas e hortaliças introduzidas acabaram sendo bem mais estudadas e disseminadas do que algumas hortaliças nativas. Dessa maneira, alguns exemplos são:

  • Taioba (Xanthosoma sagittifolium);
  • Beldroega (Portulaca oleracea);
  • Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata);
  • Minipepininho (Melothria pendula)

A lista de hortaliças e frutas nativas do Brasil é extensa e você pode conferir em, PANCs: conheça as plantas alimentícias não convencionais.

Melhoramento das hortaliças no Brasil

As atividades científicas de melhoramento de hortaliças no Brasil iniciaram na década de 1930. Dessa maneira, o Instituto Agronômico (IAC), de Campinas, e a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, da Universidade de São Paulo começaram a estruturar e desenvolver os programas de melhoramento para essas plantas.

Na mesma época, no estado do Rio Grande do Sul. pesquisas de melhoramento de hortaliças começaram a acontecer em instituições públicas de ensino e pesquisa. Portanto, foi só no início dos anos de 1970 que as empresas privadas começaram a trabalhar com melhoramento genético de hortaliças em terras brasileiras.

Sendo assim, durante muitos anos, o grande objetivo do melhoramento era desenvolver cultivares que se adaptassem às condições de clima tropical e subtropical, resistentes às diversas doenças que prejudicam as culturas. Contudo, nos últimos anos, além da resistência a doenças, o melhoramento tem buscado atender às mudanças climáticas que ameaçam a produção agrícola. Ou seja, buscamos plantas tolerantes a clima seco, ao calor, ao solo salino e às inundações.

O que tem de novo no melhoramento genético de hortaliças?

O aumento da produção e consumo de frutas e vegetais representa uma estratégia importante para assegurar a oferta de nutrientes essenciais para uma alimentação saudável.

Por isso, os pesquisadores buscam não apenas aumentar o rendimento das principais hortaliças e melhorar sua qualidade, mas também para atender às necessidades do consumidor. Além das características agronômicas, os pesquisadores trabalham por valorizar o sabor, formato e arquitetura de planta. Com tanta pesquisa na área, o número de cultivares no mercado, cresce a cada dia. Apenas para ilustrar, hoje temos no MAPA, 1901 cultivares registradas de tomate e 826 cultivares registradas de alface, duas hortaliças muito consumidas no Brasil.


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O programa de melhoramento de tomate no World Vegetable Center – instituto internacional sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento de hortaliças, com sede em Tainan (Taiwan) – vem desenvolvendo plantas com maior teor de fitonutrientes. O objetivo é obter genótipos de alto rendimento e múltiplas resistências a doenças com maior teor de beta-caroteno, licopeno, flavonoides em diferentes tipos de vegetais.

Pesquisas no Brasil

Aqui no Brasil, pesquisadores do IAC desenvolveram uma cultivar de alface que possui 16 vezes mais zinco em sua composição, partindo de 41,5 miligramas por quilo de massa seca de alface nas cultivares convencionais, para 704 miligramas na cultivar melhorada. Desta forma, pretendem desenvolver um alimento biofortificado com maior fonte de zinco de baixo custo para a população, que pode apresentar até 30% de deficiência desse nutriente. A falta de zinco pode atrapalhar o crescimento e o desenvolvimento de crianças, além de poder ser responsável por alguns distúrbios neurológicos e dificuldade na cicatrização.

Já algumas pesquisas com pimentas, visam desenvolver genótipos de alto rendimento, e tolerância a alta temperatura e incidência de doenças, que são os principais problemas responsáveis pela baixa produção de pimenta malagueta em algumas regiões.

A diversificação do melhoramento de plantas resulta em grande abundância de novos genótipos, e muitos desses se aproximam da prática comercial. As práticas agrícolas modernas fornecem grande produção a preços acessíveis, ajudando assim a garantir a segurança alimentar.

 

Gosta do assunto? Então confira nosso artigo e descubra como está o consumo de frutas e hortaliças no Brasil!

 

Principais fontes:

Hao, N. et al., Genome‑based breeding approaches in major vegetable crops. Theoretical and Applied Genetics, 2019.

Ebert, A. W., The Role of Vegetable Genetic Resources in Nutrition Security and Vegetable Breeding. Plants, 2020.

Chowdhury, M. F. N.  et al., Development of anthracnose disease resistance and heat tolerance chili through conventional breeding and molecular approaches: a review. BIOCELL, 2020.

Reginaldo Minaré
Coordenador da área de tecnologia da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

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