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Qualidade da água: para lavar, beber e para produzir todo nosso alimento

Qualidade da água

É fácil abrir a torneira e encontrar e água límpida saindo dela. Mas, você já se perguntou sobre a qualidade da água? Ou seja, de onde ela vem, e como é o processo até que ela chegue nas nossas casas?

Além disso, você sabe como os produtores conseguem água para produzir todas as frutas, verduras e legumes que consumimos? Será que eles dependem exclusivamente da chuva para isso? E como se garante a segurança da água da agricultura?


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Para falar sobre esse assunto, conversamos com o Dr. Eusímio Fraga Júnior, professor e pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia – UFU.

Portanto, vamos entender todos esses aspectos neste texto. Mas, ressaltamos: independentemente do uso da água, ela é um recurso natural muito necessário e precioso. É por isso que a segurança da água e sua qualidade são temas populares no mundo todo.

De onde vem a água que chega às nossas casas?

Se você voltar no tempo, vai perceber que não foi a água que chegou nas casas das pessoas, e sim as pessoas que construíram povoados, comunidades e cidades próximas dos locais onde existia água.

Dessa forma, as antigas civilizações começaram a estabelecer moradia perto dos rios, lagos e grandes volumes de água. E isso ocorreu ao mesmo tempo em que eles começavam a cultivar seu próprio alimento. Nesse sentido, a história se entrelaça entre os humanos deixarem de ser nômades e começarem a desenvolver a agricultura.

Dr. Eusimio Felisbino Fraga Junior "A existência da irrigação Já foi comprovada no continente asiático em 4.500 a.C. Também há relatos de seu uso pelos egípcios, às margens do rio Nilo e pelos povos Incas e Astecas nas Américas."
Dr. Eusimio Felisbino Fraga Junior - Professor e pesquisador - Universidade Federal de Uberlândia - UFU.

De lá para cá, muita coisa mudou, mas a prática da irrigação foi se difundindo pelos continentes. Assim, acabou se tornando, em muitos locais, o único meio para a produção de alimentos.

Dr. Eusimio Felisbino Fraga Junior "No Brasil os padres jesuítas, na antiga fazenda Santa Cruz, no estado do Rio de Janeiro, por volta de 1589, podem ter sido os pioneiros na implantação de sistemas de irrigação para fins agrícolas."
Dr. Eusimio Felisbino Fraga Junior - Professor e pesquisador - Universidade Federal de Uberlândia - UFU.

No entanto, as fontes de água continuam as mesmas. Com o nome de mananciais, a água que vem para as cidades tem origem de reservatórios superficiais ou subterrâneos, que são grandes volumes aquáticos abastecidos por cursos d’água como os rios. E tudo isso, depende das chuvas.

Portanto, o processo de captação, tratamento e distribuição das águas ocorre pelas empresas de saneamento. Portanto, cada região ou cidade tem uma empresa responsável por esse serviço. Ali, validam-se a qualidade e o atestado de segurança dessa água.

Monitoramento garante segurança da água

monitoramento da qualidade da águaO monitoramento da qualidade da água inicia lá nos mananciais. Desde os cursos d’água, o Programa Nacional de Avaliação da Qualidade das Águas (PNQA) coordenado pela Agência Nacional das Águas (ANA) monitora e avalia as alterações nas características físicas, químicas e biológicas da água, decorrentes de atividades humanas e de fenômenos naturais.

Propõe-se o monitoramento da qualidade da água para certificar que, no decorrer do tempo, a água que chega até as pessoas seja boa para utilização e consumo nas mais diversas atividades.

Além do mais, o monitoramento possui grande importância para garantir o bom uso e a qualidade da água. Ainda, auxilia a prevenir mudanças que podem ser prejudiciais ao meio ambiente e à saúde humana.

O monitoramento da qualidade da água define-se pela amostragem e análise dos constituintes e condições da água. Isso pode incluir:

  • Poluentes introduzidos, como pesticidas, metais e óleo;
  • Constituintes encontrados naturalmente na água que, no entanto, podem ter influência por fontes humanas, como oxigênio dissolvido, bactérias e nutrientes.

Além de várias legislações estaduais e municipais, a gestão dos recursos hídricos tem uma lei específica no Brasil, conhecida como Lei das Águas, Lei no 9.433/97, que estabelece a Política Nacional de Recursos Hídricos.

Sendo assim, todo esse monitoramento ocorre por meio de índices, com coleta e cálculos pelos estados brasileiros. Os principais índices de qualidade da água são:

  • Índice de Qualidade das Águas (IQA)
  • Índice de Qualidade da Água Bruta para fins de Abastecimento Público (IAP)
  • Índice de Estado Trófico (IET)
  • Índice de Contaminação por Tóxicos
  • Índice de Balneabilidade (IB)
  • Índice de Qualidade de Água para a Proteção da Vida Aquática (IVA)

Dessa forma, cada um dos índices vai conseguir classificar a água e dizer às pessoas como está a qualidade, atestando ou não a segurança para o consumo urbano e agrícola.

De onde vem a água que irriga as lavouras?

O campo e a cidade dividem as mesmas fontes de água, que são a chuva, os rios e poços. Nas cidades, capta-se a água, que passa pelas estações de tratamento e tem distribuição para a população. No campo, acontece de outra forma.


A chuva é a maior fonte de água para a agricultura, e a grande maioria dos produtores depende dela para completar a produção agrícola.


Seja de forma direta, quando a chuva cai do céu e molha as plantas, ou pela estocagem da água das chuvas em reservatórios, muitos produtores dependem exclusivamente da chuva para molhar seus cultivos. Já outros agricultores contam com poços e cursos d’água próximos às propriedades, podendo obter esse recurso natural diretamente de aquíferos e rios.

Dr. Eusimio Felisbino Fraga Junior "Menos de 0,6% da água irrigada advém de rios. Estudo realizado pela ANA mostra que a agricultura consome cerca de 10 mil m³ de água por segundo, dos quais 92,5% provêm das chuvas e do solo e 7,5% é captada em mananciais superficiais e subterrâneos."
Dr. Eusimio Felisbino Fraga Junior - Professor e pesquisador - Universidade Federal de Uberlândia - UFU.

Mas, para que tanta água?

irrigação na agricultura

Essa resposta é simples: para irrigar os cultivos. Em algumas regiões onde as chuvas têm maior espaçamento, por exemplo, o agricultor não consegue ter uma produção de qualidade sem a ajuda da irrigação. Além disso, a irrigação aumenta a produtividade das mais diferentes culturas, podendo chegar em até 40%, dependendo de como ocorre.

Muito se fala que a agricultura é prática responsável pela maior utilização de água, no entanto, a água da agricultura é reciclada. Assim como os animais, as plantas perdem água para o ambiente e essa água evapora ou infiltra, voltando para as fontes subterrâneas.

Dr. Eusimio Felisbino Fraga Junior "A soja utiliza 4,5 milhões de litros de água, em média, durante o seu ciclo. Em uma produtividade de 4mil kg/ha, os grãos serão responsáveis por consumir 680 litros. Apenas 0,01% de toda a água utilizada pelo vegetal. O restante volta ao ambiente."
Dr. Eusimio Felisbino Fraga Junior - Professor e pesquisador - Universidade Federal de Uberlândia - UFU.

Apesar do Brasil estar entre os 10 países que mais possuem áreas agrícolas irrigadas, a área ainda é baixa. Segundo os dados da Agência Nacional das Águas (ANA) e do Censo Agropecuário, feito pelo IBGE (2017), o Brasil tem cerca de 6,8 milhões de hectares irrigados.


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"Estima-se uma área de 55,85 milhões de hectares para expansão da irrigação. As projeções indicam a incorporação de 4,2 milhões de ha irrigados até 2040, aproximando o país de 12,4 milhões de ha irrigados. O que representa 7% do potencial total."
Dr. Eusimio Felisbino Fraga Junior - Professor e pesquisador - Universidade Federal de Uberlândia - UFU.

Onde já ocorre, a irrigação traz muitos benefícios a pequenos, médios e grandes produtores.

“Existem belíssimos trabalhos de difusão das tecnologias de irrigação ao redor do mundo. No Brasil não é diferente, temos um mercado que está em plena expansão e adaptado a todos os níveis tecnológicos e tamanho de propriedade.” Completou o Dr. Eusímio.

Mas, antes de irrigar, é preciso que o produtor rural obtenha autorização para usufruir desse recurso natural. Das áreas irrigadas, a maior parte da água vem do subsolo ou de rios. E somente pode ser utilizada com autorização da ANA.

Essa autorização tem o nome de outorga de direito de uso de recursos hídricos, e tem o objetivo de controlar a quantidade de água utilizada, a manutenção da qualidade da água e a garantia de acesso para todos que dependem daquela fonte.

A própria ANA estima que o Brasil tem potencial para expandir a área irrigada para 77 milhões dos 351 milhões de hectares dos estabelecimentos agropecuários distribuídos por todo o território nacional.

Ah! E não pense você que os produtores rurais não pagam por essa água que consomem. Assim como nas cidades, o campo também paga pela utilização dos recursos hídricos existentes.

No entanto, essa cobrança não é um imposto ou tarifa, mas sim uma remuneração pelo uso de um bem público. Não só os agricultores, mas todos que captem, lancem efluentes e façam uso direto de corpos d’água precisam pagar o valor estabelecido. Valor esse que é cobrado proporcionalmente, onde, quem usa mais, paga mais e quem polui menos, paga menos.

E afinal, a água que chega até nós é de qualidade?

a água é segura

A ANA faz monitoramentos frequentes sobre a qualidade da água e emite relatórios mostrando os valores do Índice da Qualidade da Água (IQA), que avalia a qualidade da água para o abastecimento público.

Portanto, seus resultados devem ser interpretados levando em consideração este uso da água. Por exemplo, um valor de IQA baixo indica a má qualidade da água para o abastecimento. Porém, a mesma água pode ser utilizada sem problemas em outros usos menos exigentes como a navegação ou a geração de energia.

O IQA é particularmente sensível à contaminação por esgotos domésticos, o que justifica sua utilização, visto que ainda é a principal pressão sobre a qualidade das águas brasileiras. No entanto, os resultados apresentados mostram que 82% da água do Brasil foi classificada entre “ótima” e “boa” para o uso. Ou seja, água própria para o abastecimento público após o tratamento convencional.

Os valores médios de IQA classificados como “ruins” ou “péssimos” (7%, nos últimos anos) foram, em sua maioria, detectados em corpos hídricos que atravessam áreas urbanas intensamente povoadas. Em parte dos casos, este fato deve-se ao lançamento de efluentes tratados ou esgotos domésticos lançados in natura nos corpos hídricos.

Há também a preocupação com a possibilidade da contaminação da água por agrotóxicos, principalmente em regiões onde o cultivo agrícola é intensificado e tecnificado. E para isso, também há monitoramento.

Dr. Eusimio Felisbino Fraga Junior "Existe a possibilidade de contaminação de água subterrânea, independente da fonte hídrica utilizada na irrigação, principalmente quando não são adotadas práticas adequadas de manejo na lavoura."
Dr. Eusimio Felisbino Fraga Junior - Professor e pesquisador - Universidade Federal de Uberlândia - UFU.

A legislação vigente no Brasil determina que, pelo menos, duas vezes por ano a água destinada ao consumo seja analisada para detectar se há resíduos de agrotóxicos acima dos limites estabelecidos por lei.

Se algo for encontrado, órgãos de fiscalização como vigilância sanitária e defesa agropecuária devem aplicar as devidas sanções. Vale ressaltar, todavia, que estes casos são raros e pontuais. 

Se interessou pelo assunto? Então leia, também o nosso artigo exclusivo sobre o conceito de Segurança Alimentar!

 

 

Principais fontes:

Fortes, A. C. C. et al., A vigilância da qualidade da água e o papel da informação na garantia do acesso. Saúde em debate, 2020.

ANA – Agência Nacional das Águas, Outorga de direito de uso de recursos hídricos. Cadernos de capacitação em recursos hídricos, 2011.

ANA – Agência Nacional das Águas, Conjuntura dos recursos hídricos no Brasil, 2013.

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